29 outubro 2014

Qual a sua responsabilidade?

Falar de responsabilidade é correr o risco de falar algo clichê, mas venho aqui propor outra visão para responsabilidade.

Vivemos num mundo que todos sabem, não é o melhor para se viver, a injustiça impera, mas é com a injustiça que a visão de responsabilidade que proponho surge com mais força e vigor.
No nosso mundo poucos vivem as custas de muitos e esses muitos sobrevivem na miséria. Longe de qualquer comprometimento cristão onde diz que devemos amar o próximo como nos amamos, e diz que somos todos irmãos, quero propor essa visão de irmandade para nós, sem qualquer imposição e ameaça de castigos supremos, mas propor a visão de irmandade como necessidade de vida e auto-preservação humana.

O nosso mundo atual está constituído de pessoas que são tratadas como invisíveis e descartáveis, que sobrevivem na extrema-pobreza, sem nenhuma perspectiva de futuro. Pessoas que já nascem com "pena de vida", pessoas que morrem por ser o que são. E é principalmente sobre essas pessoas que devemos ter responsabilidade, estabelecer um olhar de irmão e responsável, lutar pelos direitos dessas pessoas que consequentemente estaremos lutando pelos nossos.

Todo real artista é um responsável. Eu não consigo imaginar arte senão como executar sua responsabilidade para com o outro, e perpetuar essa responsabilidade aos admiradores do seu produto artístico.
Vários exemplos podem ser dados de artistas responsáveis, mas escolherei alguns marcantes enquanto preocupação e execução do direito de defender as minorias.

O primeiro Bertolt Brecht que foi e é um dos maiores dramaturgos do mundo além de poeta, encenador e marxista...

Bertolt Brecht
Nós vos pedimos com insistência 
não digam nunca: 
isso é natural! 
diante dos acontecimentos de cada dia 
numa época em que reina a confusão 
em que corre o sangue 
em que o arbítrio tem força de lei 
em que a humanidade se desumaniza 
não digam nunca: 
isso é natural! 
para que nada possa ser imutável!

****

Primeiro levaram os negros 
Mas não me importei com isso 
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

Gosto muito do primeiro poema do Brecht, porque traz a ideia do realismo fantástico que vivemos... A miséria, a pobreza, a violência contra os pobres. A vida sem vida se tornou algo normal, e desenvolver nossa responsabilidade para com os oprimidos é romper com esse realismo fantástico, é gritar... Isso não é natural!

O segundo poema já é mais argumentativo e traz a ideia central que todos devemos desenvolver... Preservar o outro é nos preservar, todos fazemos parte de um sistema opressor, e uma hora ou outra também seremos vitimas principais do sistema, desenvolver a responsabilidade é nos auto-preservar.

Outro escritor fantástico e muito presente na Bahia é um grandessíssimo Jorge Amado, escritor de inúmeros livros, foi deputado federal pelo PCB (Partido Comunista Brasileiro) e um exemplo de responsável.

Jorge Amado
Livro Capitães da Areia
de Jorge Amado
Uma obrigação literária é ler Jorge Amado. Capitães da Areia é um exemplo infindável de comprometimento social, de militância política, de responsabilidade com as minorias. Capitães da Areia que em tempos como os nossos se tornam ainda mais essenciais para a população, onde dados revelam que 90% da população é a favor da redução da maioridade penal.

Jorge Amado em Capitães da Areia relata todo outro lado dos meninos de rua que roubam para sobrevivência, revela o lado sentimental da prostituta, revela a fé e o carinho da mãe de santo... Classes que na época eram marginalizadas e continuam sendo, essa é a responsabilidade que devemos ter. Como o poeta e revolucionário Cubano José Martí diz "Todo homem verdadeiro deve sentir na face o golpe dado a qualquer homem". Todo homem, toda mulher, todo ser humano!

Todo artista verídico se sente responsável pelo mundo e seus problemas, e é um dever lutar para concerta-los... Mas isso não é fácil, lutar por algo exige saber dá e tomar porrada, principalmente tomar. Lutar por direitos negados a uma certa classe é se jogar na frente de tiros cruzados e tomar um lado, e isso exige responsabilidade e total consciência do que defende.

Outro exemplo de responsável é Caetano Veloso e Gilberto Gil, que no álbum Tropicália 2 lançou a música Haiti... As interpretações da música deixo para os caros leitores, saber interpretar uma música é saber interpretar um fato, algo extremamente importante para decidirmos o que defender. E assim saber... Qual a sua responsabilidade?


24 outubro 2014

Por que a grande vencedora dessa eleição foi a zueira

Desde o ano passado, por conta dos protestos que moveram o Brasil no meio do ano e como eles foram diretamente influenciados pela internet, muito se especula como seria a participação dessas mesmas ferramentas no período eleitoral. "Quero ver nas urnas", foi dito por muitos que descreditaram a integridade política daquele bando de gente vindo do Facebook - ou que ao menos tentaram. A participação da internet no processo eleitoral, claramente, nunca antes na história desse país foi tão ativa e construtiva, no sentido literal da palavra, mas em meio a tantas discussões pessoais e acusações, uma forma de expressão foi o grande destaque dessa eleição.



Antes quero dizer que por zueira eu não digo só memes, que de tão importantes alguns são até temas desse post. Mas desde já quero deixar claro que piadas ou montagens ou vídeos que não necessariamente seguem a um padrão e que constroem humor e descontração fazem parte desse universo que estamos chamando de zueira. O Brasil, aliás, tem uma forma muito específica de lidar com humor na internet, os próprios caras do Meme Factory já perceberam isso, ou seja, a zueira é mesmo nossa e ninguém tasca.


O principal fator que fez essa expressão de humor tão importante foi que ela foi a única forma eficiente de usar ironia como discussão política nessa eleição (e pelo menos em muitas). Ironia é, sem dúvida uma das formas de crítica social mais celebradas, justamente por ter a capacidade de ser ácida mas divertida ao mesmo tempo. Nos EUA, por exemplo, isso já é uma realidade. Shows como o Saturday Night Live, que fazem esquetes inteiros sobre assuntos e notícias recentes, entre elas com política, e sites como o The Onion, de notícias-sátira, são formas estáveis e aceitas culturalmente. No Brasil, isso não rola. A grande mídia acaba se isentando dessa responsabilidade não só no humor, mas também no jornalismo, que em grande parte acaba escolhendo um lado, mas querem mostrar imparcialidade. Com exceção de revistas como Veja e Carta Capital, de lados bem definidos, poucas mídias no país vão fundo em posicionamento.

E, é bom dizer: ainda bem. Crítica social através da mídia, principalmente a partir do humor, apesar de ser algo que precisa passar a acontecer, não deve ser feito irresponsavelmente e requere muita habilidade. Imagine só o Zorra Total fazendo o Weekly Uptade, ou o Danilo Gentili tentando comentar sobre jogos políticos como o Colbert. Não sei vocês, mas eu prefiro não. Nesse caso, acaba sobrando para a internet.



O mais interessante é ver como a zueira aproximou o eleitor, ao menos o que já que se encontrava no Facebook, Twitter e/ou WhatsApp, do interesse pelo assunto e acabou por simplificar a política. Esse meme de cima, um dos mais recorrentes no período e que você deve ter visto em sua timeline, é uma prova disso. Pra quem não sabe, o meme tem sempre características que quem quer que seja adiciona seu toque e distribui. O meme Tenso usa a aproximação da imagem, a imagem você seleciona. O meme da Nana Gouveia você precisa daquela espefícica foto dela e de um fundo trágico, a partir daí sua criatividade que manda. No caso do meme dos precidenciáveis você escolhia um tema e tinha que adequar as respostas a uma às repetitivas coisas que cada candidato dizia. Ou seja: pra entender e participar do meme, você precisava também entender, mesmo que de forma bem superficial, o que cada um dos candidatos representava.



O resultado direto disso foi o crescimento que os candidatos nanicos tiveram na mídia esse ano. Todo ano os candidatos que porcentagem de uma casa ou menos das intenções era simplesmente descartado do cenário, e mesmo nesse ano foi, quando apenas 4 candidatos apareceram no Jornal Nacional (ainda tentando entender o critério usado para selecionar Everaldo, mas ok). Mas, a partir do momento que a internet começou a mostrar simpatia por Luciana e Eduardo, principalmente, a mídia começou a abrir os olhos para outros candidatos. A partir daí, quem tinha destaque era não quem tinha campanhas melhores ou mais dinheiro, mas justamente quem se destacasse, pra bem ou pra mal. Levy Fidelix, por exemplo, mesmo sendo quase zero sua influência nas urnas, quando fez declarações homofóbicas no meio do debate virou o centro das atenções no dia seguinte, enterrando sua campanha de vez.

Depois de Marina mudando de ideia, Dilma querendo dizer o que não disse, Luciana Solitária, Eduardo sendo fofo no Twitter, Bonner sendo Bonner, Candidatos sendo elenco do Chaves e piadas sobre aerotrem, água, cocaína, privatização, maconha, não ter nada a ver com isso, aparelho excretor, papéis de tema, urna e até um romance fictício de Luciana e Eduardo (TEM FANFIC!!!), fica evidente que o jovem brasileiro, que foi por mundo tempo acusado se ser ignorante para a política, percebe muito melhor o significado das representações políticas e dá muito mais atenção a eventos e discursos que ocorrem, provando que o gigante aparentemente ainda está acordado, mesmo que ainda um pouco grogue.

Num momento em que todos decidiram se apegar a seus posicionamentos, com uma votação tão apertada, parece que a tendência mudou de zueira para brigas. Natural que aconteça, mas é preciso entender que levar a sério um assunto e criticá-lo não são necessariamente a mesma coisa, e, pelo contrário, que as duas coisas são completamente independentes, sendo a segunda a que deve ser o que guiar nosso pensamento daqui para frente, seja qual for o presidente.

17 outubro 2014

Playlist: Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor!

17 de Outubro, Dia Nacional da Música Popular Brasileira. Homenageia Chiquinha Gonzaga, reconhecida como a primeira compositora da MPB, que hoje é plural, abstrata, sem fronteiras, que vem de todos os cantos e tão representativa. Estilos e gêneros variados, transcendendo em épocas distintas, seja rock, techno, carimbó, forró, rap, ritmos afro-brasileiros, pop, experimental, tradicional.
Aquela geração [geração de 60] (apoiada pela TV, pelas rádios e pelo próprio público) enfrentou com inteligência a truculência de uma ditadura cruel, e se tornou clássica. Já a atual geração se desdobra para enfrentar outro inimigo, o capitalismo burro e sem escrúpulos, para sair de um gueto que, ainda que mostre sinais de evolução, está longe do reconhecimento merecido. E esse reconhecimento virá? Esperamos que sim. Esperamos. Enquanto esse dia não chega, a nova música brasileira está a sua disposição, a um toque do mouse. Não perca tempo. (Marcelo Costa)
Como diria os Novos Baianos, chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor. Não há nada mais significativo para isto se não for a produção artística histórica e atual da música popular brasileira. O Brasil como essência, não o virtual e inútil.

16 outubro 2014

Resenha - Under The Dome: 2ª temporada


Stephen King é responsável por boa parte do que se conhece de sci-fi pop americano. Obras literárias como Carrie, a Estanha e O Iluminado, de sua autoria, viraram grandes filmes, principalmente por dois motivos. O primeiro é que suas narrativas são sempre permeadas de metáforas sociais, que são transportadas para o que vem a ser o elemento sobrenatural ou de horror do elemento central da história. O segundo é que ele sempre se envolve no projeto cinematográfico de forma expressiva. Não é diferente em Under The Dome. A série, cuja segunda temporada foi exibida pela CBS, narra a história de uma cidade do interior dos EUA que é isolada por uma redoma, de origem e composição desconhecida. O funcionamento da narrativa segue bem à primeira regra, já que, para continuarem vivos, os moradores da cidade vão ter que reconstruir conceitos de sociedade e até de ecologia, quase como se a redoma formasse um mundo em miniatura, com consequências dos atos humanos muito mais instantâneas. A segunda também é válida: Stephen tem dedos, mãos e cabeça enfiados no projeto, chegando a escrever episódios inteiros dessa temporada. E isso é uma pena: não dá pra dizer que ele não teve controle do que está sendo construído.

Com um plot central tão promissor, Under The Dome acaba sendo o que se espera de uma série do seu gênero, provavelmente inferior, inclusive. Nomes como Stephen King e Steven Spielberg se acumulam na produção da série, e devem enganar a quem achar que são sinônimos de uma boa produção. Aqui, eles fazem apenas o que sabem fazer de melhor: um sucesso comercial. Under The Dome tem uma audiência grande e estável em seu horário, o que é ótimo para a CBS, mas para isso tende sempre a criar histórias pouco inovadoras para um público que já sabe o que esperar, mesmo se tratando de uma série sobre fenômenos misteriosos.

Desde Lost esse tipo de série é quase obrigatória na TV americana e segue bem a modelos já preestabelecidos. Nada de errado, desde que sejam feitos com qualidade. Os ganchos, que deveriam ser a principal ferramente desse tipo de programa, são aleatórios e por vezes até abruptos ou repetitivos, dando a sensação que eles não foram sequer pensados. O roteiro todo, aliás, é sofrível. Os personagens, cuja inconstância podiam ser um ponto forte do mistério, caem facilmente no esteriótipo já preestabelecido na temporada anterior, e quando mudam de personalidade é apenas para se encaixarem em algum papel de vilão ou herói do momento que precisa ser preenchido. Os diálogos não consegue aprofundá-los, e acabam sendo ou um grande falatório sentimental e místico sobre "o que a redoma quer ou não" - sim, aparentemente ela tem uma personalidade na série, a única desenvolvida, talvez.

O que resta de aspectos não negativos de Under The Dome não chegam a ser aspectos positivos, mas apenas OK, regulares. A série não acrescenta nada à gama de séries transgressoras que temos nesse momento da TV, e sua função é apenas fornecer entretenimento para o espectador que só quer distração e para a rede de TV que só quer reter o que ainda resta de público. Quase uma novela.