25 novembro 2014

Velha a mente, criança o espírito


"Os meus olhos já não são os mesmos de antes: uma borboleta é só uma borboleta, uma formiga é só uma formiga e uma poça de água é só uma poça de água. Saudade de quando tudo isso era poesia, tudo isso era mais belo e o sentido denotativo não importava tanto: as coisas eram o que eu queria que elas fossem. Talvez um dia meus olhos voltem a enxergar vitrais em cebolas, garotas chorosas em velas, lentes em gotas d’agua, janelas em olhares e coisa tal. Talvez um dia eu desaprenda minha velhice dos quase catorze e vá virar poeta e escrever sobre as coisas que os adultos de espírito não vêem, não sentem, não cheiram, não ouvem, não tocam. Não sei se vale a pena ser um adulto de espírito, ser elogiado pelo cargo, pela casa, pelos diplomas… Quero ser criança de espírito por toda minha existência, com palavras mal colocadas, caligrafia confusa e os olhos de poeta. Quando um espírito adulto enche os olhos, é porque estes viram ouro, belas jóias, roupas de grife e casas de praia. Quando um espírito de criança enche os olhos, é porque viu amor, palavras bonitas, pôr-do-sol, espuma do mar, flores de ipê. Quero estudar a sinuosa anatomia da minha alma e descobrir se o espírito que guardo nesse ser recheado de carbono é pueril e curioso ou adulto e saciável."

24 novembro 2014

A viagem que vi e reparei

Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.
(José Saramago)

Estou distante de tudo aquilo que chamam de civilização. Lugar que se deve, por obrigação, reconhecer as premissas dos Filósofos da Natureza, pensar em paz, harmonia e toda aquela história de contemplação que acaba sendo desimportante no dia-a-dia: Vale do Pati*.

Aqui não há meios de transportes, pelo menos que estejam disponíveis para uso pessoal. As cargas são transportadas em burros e mulas que precisam ser muito bravos para sustentar todas as regalias humanas. Energia apenas solar, nada de celular e internet. Demorei um dia todo para chegar. Esforcei-me para acordar antes das 5 horas da manhã e vim andando até depois das 12. Subi e desci morros, passei por rios, matas. Dentre as poucas casas que têm, fiquei instalado na mais próxima.

Aqui venta muito e, aliás, mesmo que não ventasse, valeria a pena ter nascido. Lembrando assim de Fernando Pessoa: “Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido”.

Desconfigurei a rotina; olhei bem para o chão, reparei as estrias da terra e a textura das rochas. Olhava para um lado e via um imenso paredão. Queria entender geologia para estudar melhor aquelas formas, saber sua origem e seu possível futuro. Porém, sem esforço analítico sei que são belíssimas, simplesmente porque são e não há quem conteste. Serras como estas estão por todo lugar. Formas, contrastes, sombras e impactos distintos. Há uma cachoeira que forma um funil, realmente muito impressionante, assim como aquelas pequenas quedas d’agua. Lembro que chamava isto de cachoeiras para formigas na minha infância. Quando subi o Morro do Castelo, aproximadamente 1.500 metros de altitude, percebi que estava num morro para humanos.

Tudo aqui é trilha. Nada é fácil, no entanto tem seu preço. Belo liquen encontrei numa rocha, bela forma a luz solar faz numa folha. Falando em folhas, lindas aquelas folhas secas que nem precisam de vida para impressionar.

Ah! e o sol... O feixe alaranjado de luz no branco acinzentado das rochas no topo das serras. Não acabava quando o sol se punha, formando o céu mais estrelado nunca visto antes. Identifiquei pelo menos o Cruzeiro do Sul, as Três Marias, típico de um ignorante em astronomia. Mas tenho o direito de me impressionar, querendo fotografar este mar de estrelas mesmo sabendo que no final a câmera não captaria nada.

Passei frio, mas nada que uma fogueira não resolvesse. A dualidade do poder do fogo de ora proteger e ora ser destruidor. Nem sempre me preocupei em estar contra o vento para não receber a fumaça. Além de ter me aquecido somente de um lado, tendo que virar às costas depois.

Não obstante, farei este processo de escrita da luz – mesmo que sem luz - fundindo na minha memória àquela paisagem e tantas outras que desconfiguraram meu olhar automático e superficial: a água, a terra, o vento e o fogo.

*Vale do Pati, Chapada Diamantina - Bahia

23 novembro 2014

Mundo Caduco

Escrever coisas relacionada a literatura é algo prazeroso para mim. Nesse mês e nesse post venho compartilhar dois poemas que dialogam entre-si e dizem muito para nós. Um Português e um Brasileiro narrando de forma poética e com tal profundidade a nossa atualidade. 
Carlos Drummond de Andrade e Fernando Pessoa presenteia os apaixonados por literatura e exercício filosófico com Elegia 1938 e Ode Triunfal.

                Elegia 1938

                         Trabalhas sem alegria para um mundo caduco, 
                        onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.

                      Praticas laboriosamente os gestos universais,
                      sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
                            Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
                       e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
                    À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
                      ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
                   Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
                     e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
                    Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
                e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
                 Caminhas entre mortos e com eles conversas
                    sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
                 A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
                      Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
                   Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
              e adiar para outro século a felicidade coletiva.
                    Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
                        porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.
                    Carlos Drummond de Andrade


Ode Triunfal
 À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica 
Tenho febre e escrevo. 
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto, 
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos. 

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno! 
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria! 
Em fúria fora e dentro de mim, 
Por todos os meus nervos dissecados fora, 
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto! 
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos, 
De vos ouvir demasiadamente de perto, 
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso 
De expressão de todas as minhas sensações, 
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas! 

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical — 
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força — 
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro. 
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro 
E há Platão e Virgíllo dentro das máquinas e das luzes eléctricas 
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão, 
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinqüenta, 
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem, 
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando, 
Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma. 

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! 
Ser completo como uma máquina! 
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo! 
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto, 
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento 
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões 
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável! 
Fraternidade com todas as dinâmicas! 
Promíscua fúria de ser parte-agente 
Do rodar férreo e cosmopolita 
Dos comboios estrênuos. 
Da faina transportadora-de-cargas dos navios. 
Do giro lúbrico e lento dos guindastes, 
Do tumulto disciplinado das fábricas, 
E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão! 
Horas européias, produtoras, entaladas 
Entre maquinismos e afazeres úteis! 
Grandes cidades paradas nos cafés, 
Nos cafés — oásis de inutilidades ruidosas 
Onde se cristalizam e se precipitam 
Os rumores e os gestos do Útil 
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo! 
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares! 
Novos entusiasmos de estatura do Momento! 
Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostados às docas, 
Ou a seco, erguidas, nos planos-inclinados dos portos! 
Atividade internacional, transatlântica, Canadian-Pacific! 
Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hotéis, 
Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots, 
E Piccadillies e Avenues de l'Opéra que entram 
Pela minh'alma dentro! 

Hé-lá as ruas, hé-lá as praças, hé-lá-hô la foule! 
Tudo o que passa, tudo o que pára às montras! 
Comerciantes; vários; escrocs exageradamente bem-vestidos; 
Membros evidentes de clubes aristocráticos; 
Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes 
E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colete 
De algibeira a algibeira! 
Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa! 
Presença demasiadamente acentuada das cocotes 
Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?) 
Das burguesinhas, mãe e filha geralmente 
Que andam na rua com um fim qualquer; 
A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos; 
E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra 
E afinal tem alma lá dentro! 

(Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!) 

A maravilhosa beleza das corrupções políticas, 
Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos, 
Agressões políticas nas ruas, 
E de vez em quando o cometa dum regicídio 
Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus 
Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana! 


Notícias desmentidas dos jornais, 
Artigos políticos insinceramente sinceros, 
Notícias passez à-la-caisse, grandes crimes — 
Duas colunas deles passando para a segunda página! 
O cheiro fresco a tinta de tipografia! 
Os cartazes postos há pouco, molhados! 
Vients-de-paraître amarelos como uma cinta branca! 
Como eu vos amo a todos, a todos, a todos, 
Como eu vos amo de todas as maneiras, 
Com os olhos e com os ouvidos e com o olfato 
E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!) 
E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar! 
Ah, como todos os meus sentidos têm cio de vós! 

Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura! 
Química agrícola, e o comércio quase uma ciência! 
Ó mostruários dos caixeiros-viajantes, 
Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria, 
Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios! 

Ó fazendas nas montras! ó manequins! ó últimos figurinos! 
Ó artigos inúteis que toda a gente quer comprar! 
Olá grandes armazéns com várias seções! 
Olá anúncios eléctricos que vêm e estão e desaparecem! 
Olá tudo com que hoje se constrói, com que hoje se é diferente de ontem! 
Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos! 
Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos! 
Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos! 

Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera. 
Amo-vos carnivoramente, 
Pervertidamente e enroscando a minha vista 
Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis, 
Ó coisas todas modernas, 
Ó minhas contemporâneas, forma atual e próxima 
Do sistema imediato do Universo! 
Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus! 

Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks, 
ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes — 
Na minha mente turbulenta e encandescida 
Possuo-vos como a uma mulher bela, 
Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama, 
Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima. 

Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas! 
Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios! 
Eh-lá-hô recomposições ministeriais! 
Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos, 
Orçamentos falsificados! 
(Um orçamento é tão natural como uma árvore 
E um parlamento tão belo como uma borboleta.) 

Eh-lá o interesse por tudo na vida, 
Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras 
Até à noite ponte misteriosa entre os astros 
E o mar antigo e solene, lavando as costas 
E sendo misericordiosamente o mesmo 
Que era quando Platão era realmente Platão 
Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro, 
E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dele. 

Eu podia morrer triturado por um motor 
Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída. 
Atirem-me para dentro das fornalhas! 
Metam-me debaixo dos comboios! 
Espanquem-me a bordo de navios! 
Masoquismo através de maquinismos! 
Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho! 

Up-lá hô jockey que ganhaste o Derby, 
Morder entre dentes o teu cap de duas cores! 

(Ser tão alto que não pudesse entrar por nenhuma porta! 
Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!) 

Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais! 
Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas, 
E ser levado da rua cheio de sangue 
Sem ninguém saber quem eu sou! 

Ó tramways, funiculares, metropolitanos, 
Roçai-vos por mim até o espasmo! 
Hilla! hilla! hilla-hô! 
Dai-me gargalhadas em plena cara, 
Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas, 
Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas, 
Rio multicolor anónimo e onde eu me posso banhar como quereria! 
Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto! 
Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro, 
As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam, 
Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto 
E os gestos que faz quando ninguém pode ver! 
Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva, 
Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome 
Me põe a magro o rosto e me agita às vezes as mãos 
Em crispações absurdas em pleno meio das turbas 
Nas ruas cheias de encontrões! 

Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma, 
Que emprega palavrões como palavras usuais, 
Cujos filhos roubam às portas das mercearias 
E cujas filhas aos oito anos - e eu acho isto belo e amo-o! — 
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escadas. 
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa 
Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão. 
Maravilhosa gente humana que vive como os cães, 
Que está abaixo de todos os sistemas morais, 
Para quem nenhuma religião foi feita, 
Nenhuma arte criada, 
Nenhuma política destinada para eles! 
Como eu vos amo a todos, porque sois assim, 
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus, 
Inatingíveis por todos os progressos, 
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida! 

(Na nora do quintal da minha casa 
O burro anda à roda, anda à roda, 
E o mistério do mundo é do tamanho disto. 
Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente. 
A luz do sol abafa o silêncio das esferas 
E havemos todos de morrer, ó pinheirais sombrios ao crepúsculo, 
Pinheirais onde a minha infância era outra coisa 
Do que eu sou hoje... ) 

Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante! 
Outra vez a obsessão movimentada dos ônibus. 
E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios 
De todas as partes do mundo, 
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios, 
Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas. 
Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado! 
Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores! 

Eh-lá grandes desastres de comboios! 
Eh-lá desabamentos de galerias de minas! 
Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos! 
Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá, 
Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões, 
Ruído, injustiças, violências, e talvez para breve o fim, 
A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa, 
E outro Sol no novo Horizonte! 

Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto 
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo, 
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje? 
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento, 
O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro, 
O Momento estridentemente ruidoso e mecânico, 
O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes 
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais. 

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar, 
Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos, 
Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar, 
Engenhos, brocas, máquinas rotativas! 

Eia! eia! eia! 
Eia electricidade, nervos doentes da Matéria! 
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente! 
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez! 
Eia todo o passado dentro do presente! 
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia! 
Eia! eia! eia! 
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita! 
Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô! 
Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me. 
Engatam-me em todos os comboios. 
Içam-me em todos os cais. 
Giro dentro das hélices de todos os navios. 
Eia! eia-hô! eia! 
Eia! sou o calor mecânico e a electricidade! 

Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa! 
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia! 

Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá! 

Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá! 
Hé-la! He-hô! Ho-o-o-o-o! 
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z! 

Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!


Álvaro de Campos (Heterônimo de Fernando Pessoa)


Dois poemas que refletem nossa vida onde as maquinas e objetos tomaram o lugar do homem, que como Marx fala o homem sofre a coisificação, não somos o que somos, somos o que temos, somos o nosso trabalho, somos o nosso status. 
Literatura é descortinar a cortina da ignorância, é da luz ao pensamento e definitivamente Pessoa e Drummond fazem isso perfeitamente ao mostrar e chocar nós mesmos com nossa realidade de neblina e r-r-r-r-r's eternos que rodeia nosso mundo caduco.

22 novembro 2014

Carta do Editor - Mês #6 Litteris

Novembro Negro, Azul, Dourado... Este mês veio com várias propostas, tantas propostas que ficamos sem norte. O que falar neste mês tão demarcado? Nesta dúvida o tempo passou, a propósito, nos resta apenas uma semana. Neste sentido, vamos quebrar a lógica das cores e pensar em representar o abstrato de uma forma significativa: Litteris.
Letras, Literatura, Lirismo. A partir deste marco temporal, ocuparemos nosso espaço levantando as bandeiras da poesia, seja já produzida, que nós produzimos e que você produziu e quer nos mandar.
Poemas, contos, crônicas, relatos; "Não quero saber do lirismo que não é libertação". (Manuel Bandeira)
O poeta é uma espécie em extensão.
Poeta, enfrente verso.


Eu Me Chamo Antonio