20 setembro 2014

Links de Sábado #9

HOJE EU QUERO VOLTAR COM OSCAR
A gente só não tinha falado de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho ainda porque o filme saiu no período de hiato do blog e não houve ainda um momento exato em que ele se encaixava. Essa semana, porém, saiu a notícia que o filme é o selecionado para representar o país na disputa pelo Oscar, o que é uma ótima notícia. Primeiro porque é uma ótima representação, já que a quantidade de prêmios que ele já ganhou pelo mundo não é bobagem. A lista já passa dos 20, contando 3 prêmios só no festival de Berlim, onde o filme estreou, entre eles o Teddy Awards, principal premiação LGBT do mundo, ganhando de filmes americanos e franceses. Isso sem contar que recebeu prêmio de melhor filme em quase todos os festivais que participou pelo mundo afora. Além disso, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho representa uma nova possibilidade ao cinema brasileiro, que costuma se limitar tanto em temática, quanto em formato. Pra quem não viu o filme ainda dá pra baixar no iTunes, no Google Play e também dá pra comprar o DVD "pirata oficial", que a própria produção do filme tá vendendo bem baratinho, só R$10. Pra quem já viu só basta ver de novo e torcer pra que o filme seja indicado, já que é algo que não ocorre com um filme brasileiro desde 1999, com Central do Brasil.



BUTTON POETRY
Não que seja nenhuma novidade, mas essa semana eu descobri o canal Button Poetry no Youtube. O canal, que é em inglês (desculpa, nem legenda em português tem =/) é um compilado de poetas recitando seus poemas em eventos. O interessante é que os poemas são contemporâneos, em sua maioria escrito por jovens, e todos com forte representação de diversidade. Basicamente todos os vídeos são muito bons, mas só para você ter uma ideia indico Friend Zone, de Dylan Garity, que questiona a validade do termo a partir das próprias experiencias com ele; OCD, de Neil Hilborn, que narra a obesessão de um homem com TOC por sua namorada; Piñata, de Pages Matam, em que o autor desconstrói a cultura de estupro a partir de um comentário que ouviu no ônibus; To JK Rowling, from Cho Chang, de Rachel Rostad, em que a poeta critica a representação de mulheres asiáticas na cultura pop a partir da personagem de Harry Potter; Dear Straight People, de Denice Frohman, um hilário poema sobre verdades não ditas sobre homossexualidade; e meu favorito, Shrinking Woman que está abaixo, um poema sobre como a nossa sociedade reduz as mulheres, não só psicologicamente como também fisicamente. O legal é não só ver belos poemas mas também a ótima performance que os autores dão e a sempre entusiasmada reação da plateia. Vale muito a pena ficar horas fuçando o canal.


COVER DA SEMANA
Eu geralmente não sou muito fã do Jason Mraz, mas sou muito fã de Lennon and Maisy, essas duas meninas que basicamente tudo que tocam vira ouro. Elas são extremamente fofas e as versões delas de Call Your Girlfriend, Hey Ho e I Won't Give Up delas são incríveis. Foi por essa ultima que elas foram chamadas pelo intérprete da música, Jason Mraz, pra participar de um show cantando a música. O vídeo no Youtube tem não só a versão como também os ensaios e os bastidores, tudo junto.

15 setembro 2014

Os Sertões e sua importância literária, histórica e reflexiva

Quando se fala de história levando em conta a literatura não se pode ignorar um clássico brasileiro, pré-modernista e também dos vestibulares.
"Os Sertões" de Euclides da Cunha. Um livro que possibilita um entendimento em áreas como antropologia, sociologia, geografia, geologia, história... Do Nordeste Brasileiro, porém história não é simplesmente comprovação de erudição, ela é reflexão do passado e presente (E por que não do futuro?).

"Os Sertões" é dividido em três partes "A Terra", "O Homem" e a "A Luta". Na primeira, como o próprio nome já diz, ele fala da formação geográfica Nordestina; na segunda, a formação dos mestiços; e na terceira, Euclides detalha as expedições de extermínio executadas contra Canudos.
Livro "Os Sertões" de Euclides da Cunha
Publicado pela editora EDIOURO
Os Sertões começou a ser escrito primeiramente com o objetivo de ser uma matéria para o jornal "Estado de S. Paulo", mas o que era pra ser uma expedição jornalística se tornou em uma obra-prima que desmistificou tudo o que a mídia contava sobre Canudos.

Quando o autor foi para Canudos fazer a matéria sobre o arraial, já partia com opiniões formadas (Opinião disseminada pela mídia da época), mas ao chegar no arraial viu que tudo era completamente diferente, o que era dito como restauração da monarquia era na verdade um movimento social e revolucionário com base religiosa promovida por Antônio Conselheiro (Líder do movimento de fundação de Canudos) contra a república autoritária e opressora.
Gravura feita em Xilogravura retratando os discursos
que eram feitos por Antônio Conselheiro por onde o
agitador revolucionário passava.
Voltando ao início do texto... A reflexão do nosso presente e futuro surge principalmente nesse ponto da obra. A mídia disseminou ódio contra a revolta popular que crescia. E dissemina contra as que crescem na atualidade sempre a favor da burguesia (O que ela representa) e enquanto não nos reconhecermos como susceptíveis a diferentes manipulações midiáticas, continuaremos na inércia ignorante que Euclides outrora esteve. Cazuza em 1988 já dizia "Eu vejo o futuro repetir o passado" e esse passado ainda se repete nos nossos anos "2000", por isso a leitura da história como reflexão da atualidade é essencial para uma renovação política e ideológica.

Gravura extraída da adaptação para quadrinhos de "Os Sertões".
Retrata a terceira parte do livro "A Luta". 



Além da questão da mídia, pode se destacar a resistência brava dos sertanejos contra os soldados da república que bem armados, invadiram as terras nordestinas com uma missão de extermínio.
Os sertanejos lutaram junto a sua terra (talvez sem o conhecimento de que lutavam junto a ela), mais ou menos como os Russos fizeram contra o exército de Napoleão e a União Soviética fez contra o exercito de Hitler, o conhecimento do seu ambiente propiciou aos sertanejos ganharem algumas expedições.
Os soldados (Como sempre peças de xadrez controlados por burgueses, feitos para manter a classe baixa na comodidade nada cômoda) não aguentavam o calor que o sol do sertão nordestino aplicava sobre suas roupas pesadas deixando-os assim exaustos...

Mas nem tudo em Os Sertões é um "mar de rosas"... Por Euclides da Cunha ser de uma época em que se negava a mestiçagem do branco com demais cores e etnias, durante "O Homem" são descritas várias notas racistas com termos como "raça superior" e "raça inferior", porém é notável uma contradição... A medida que se ler a obra se percebe também uma mudança de ideia do autor, (É a questão da análise e reflexão que devemos nos cobrar) Euclides passa a admirar o sertanejo, principalmente pela sua disponibilidade de luta pelo que acredita que se deve lutar.
“A raça superior torna-se o objetivo remoto para onde tendem os mestiços deprimidos e estes, procurando-a, obedecem ao próprio instinto da conservação e da defesa.” (Página 49 – Os sertões)
O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral. (Página 51 – Os sertões)
Acima exemplos dessa contradição e mudança de ideia que é percebida durante a leitura.

Além dessa estética de "Os Sertões", Canudos pode ser considerado um dos grandes eventos mundiais.
Canudos representa para toda classe comunista e anarquista a realização da utopia (utopia?).
Foi a consagração de um movimento revolucionário e puro, onde a existência humana, com o coletivismo e irmandade tornou-se a saída para a opressão da república, e por sair das garras opressoras dos dominantes foram covardemente exterminados. 
E o povo de Canudos? Representaram e representam "A rocha viva da nossa raça".

Cena final da adaptação para o cinema 
da história de Canudos. Dirigido por Sérgio Rezende. 

05 setembro 2014

Resenha - Amores Inversos (Hateship, Loveship)


A primeira coisa que se pode dizer sobre Amores Inversos, adaptação do conto Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento, de Alice Munro, atual ganhadora do Nobel de Literatura, é que é, definitivamente, inesperado. Não só pela atuação dramática como protagonista da Kristen Wiig, de comédias como Saturday Night Live e Missão Madrinha de Casamento, mas também porque é um desses filmes que não é possível resumir a história numa sinopse. Os fatos que acontecem, apesar de muito bem amarrados, não seguem a linha óbvia com a qual nos acostumamos, com desenvolvimento, clímax e tudo mais, e é difícil até mesmo definir a qual o gênero ele pertence.

Para aqueles que não leram o conto e preferem ficar sem spoilers, o pouco que dá pra dizer é que o filme conta a história de uma mulher que é cuidadora de idosos e que, depois da morte da mulher para quem ela trabalhava, vai ter que cuidar de uma adolescente que mora com o avó ausente e cujo pai está tentando reconstruir a vida em outra cidade. A partir daí, o desenvolvimento de tramas e acontecimentos se dão num efeito dominó. Essa forma de escrita, em que uma cena leva à outra, ao invés de serem conectadas por ganchos, dá ao filme uma noção completamente natural. É graças à história ser tão boa, porém, que, diferente de muitos filmes indies com o mesmo modelo, o filme não parece ser ser rumo. Ainda sim, isso não significa que se trata de um filme fácil.

A reconstrução parece ser o que norteia esse filme, não só pela estrutura do roteiro. A já citada atuação de Kristen Wiig é tão bem dosada, que é difícil de acreditar que a atriz é comediante ao invés de reclusa e comedida como a personagem. Toda a história vai, a cada cena, em uma direção completamente nova e inesperada, mas ao mesmo tempo o clima estético do filme é sempre de corriqueirismo, dando a impressão de se tratar de uma história comum de pessoas reconstruindo suas vidas, dessas que ouvimos da avó sobre um parente num domingo de almoço.

O grande trunfo do filme é esse: mostrar histórias que parecem beirar à realidade e que, apesar de serem difíceis de funcionarem, passam a dar certo ao longo do tempo. É uma visão diferente da que geralmente filmes imersivos à realidade alheia passam, em que mostrar a realidade vira sinônimo de comover a partir do infortúnio alheio. A oposição que Amores Inversos faz a essa visão é tão suave, que não se oporia a ela até o mais pessimista. Só basta saber se ele não se incomodar com um filme que, apesar da história nada extraordinária, é tão pouco comum.

02 setembro 2014

Carta do Editor - Mês #4 História

A História, como ciência que analisa o homem e indivíduo e ser social com enfoque em seu desenvolvimento no tempo, não apresenta uma maneira única e definitiva do que aconteceu. Um mesmo fato histórico pode haver várias interpretações ao longo do tempo, sendo construída com informações que têm autores e intenções distintas. As maneiras de olhar para o passado mudam de acordo com o presente, constantemente sendo atualizado.

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No século XIX, se tinha uma historiografia totalmente limitada a interesses políticos e da classe dominante. Só eram aceitos documentos oficiais e outras formas de tentativa evidenciar um fato foram ocultadas, desimportando as outras civilizações e culturas, sem a possibilidade de ampliação do campo de problematização.

Esta concepção foi mudada com o desenvolvimento da Ciência, e hoje, já se tem inúmeras possibilidades de fonte histórica. Fotografia, pinturas, relatos orais, livros literários, utensílios do cotidiano, monumentos, objetos, e dentre outros. Há muito mais liberdade, podendo dar a mesma atenção aos fatos que aconteceram, principalmente aqueles que fluíram de forma orgânica.

Pensando nisto e por ter participado no dia 30/08 do VII Recital de Poesia de Santo Amaro - BA, que nesta edição homenageara Zilda Paim, tive a ideia de compôr esta carta do editor com o tema História e não tratá-la somente como Ciência, e sim como artifício de grande valor para a sociedade em geral.

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Quem acompanha o blog ou leu as postagens mais precisamente do mês passado, pode perceber facilmente minha queda por esta cidade. Mas não é atoa não. Nesta falarei apenas de uma pequena parte (de grande valor) de Santo Amaro, que foi Zilda Paim e sua importância para história e formação intelectual.

Zilda morreu ano passado, infelizmente não pude conhecê-la. Na época não conhecia direito seus feitos, tampouco quem foi, mas sabia que era um nome de grande importância. De forma sintética, foi educadora, folclorista, pintora e historiadora.

Revelou que sempre teve curiosidade sobre as coisas da cidade e sentia ciúme de ter passado a vida toda lendo sobre a história de outros lugares e não tinha muito como saber sobre Santo Amaro."A curiosidade é a verdadeira alma da civilização" (Machado de Assis). Por conta disto, passou a recolher informações, catalogar e documentar qualquer coisa que achava importante.

Professora por mais de 50 anos, especialista de renome internacional em maculelê, foi a primeira mulher Presidente da Câmara de Vereadores e tem um quadro da Prefeitura e da Igreja Matriz de Santo Amaro exposto em uma galeria em Nova Iorque. Se dedicou muito ao folclore e em suas aulas, tratava de temas bastante questionadores, isto por volta da metade do século passado, época marcada pelo conservadorismo. Progresso, escravidão e preconceito, cultura e arte, dentre outros.

Não fez faculdade de Belas Artes, nem de História, porém é tratada como pintora e historiadora. "Os amores na mente, / As flores no chão. / A certeza na frente / A história na mão". (Geraldo Vandré). Portanto, sem este conhecimento da história, seja como Ciência ou como abstração, a humanidade estaria alheia a qualquer coisa. Não se deve deixar para trás e achar irrelevante a cúpula cultural construída pelo tempo.
[Imagens retiradas do blog Zilda Paim]