21 agosto 2014

O homem e o mar

Nunca gostou do mar. Nunca antes. Havia vivido sempre na parte mais interior da cidade, ou em outras cidades pelo país. Ir à praia sempre significou domingo, confusão, problema para estacionar, areia pelando e barulho. Muito barulho. Mas agora o barulho é agradável. Ondas batem umas nas outras e também em seus pés descalços. A areia não queima as palmas, são 6 da tarde. A barra está dobrada, a um palmo do calcanhar. Está com uma calça cinza, social, que apesar de devidamente abotoada tem o cinto afrouxado. A gravata também estava afrouxada, na gola de uma camisa ofuscantemente branca, que tinha seu brilho reduzido pelo breu de um belo paletó preto. Seus olhos, fixos no horizonte.

Poucos entendem o conforto que a imensidão pode trazer. Imergir-se, em seja lá o que for, é um dom: o de se encontrar pequeno. Depois de décadas de vida, família e trabalho, agora sozinho e repleto de rugas, que vai se encontrar pequeno. Olha fixamente e ama o mar porque é maior que si mesmo, em milhões de quilômetros cúbicos; porque está lá há mais tempo que ele jamais viveria, mesmo em dezenas de vidas juntas. Não importa o cubículo em que agora vive, não importa quão fria está a vida e a água em seus pés. Em algum lugar aquela mesma água está quente.

Quem passa na rua da orla naquele instante, no tráfico colapsal do fim de tarde de um dia de semana qualquer de uma cidade grande deve achar se tratar de um homem cansado. Sentia-se, sim, pesado, mas mais pelo movimento que a areia fazia quando a onda voltava deixando um rastro em forma de buraco. Naquele momento, porém, também era leve. Não só leve, fluido. Se imergia e dissolvia no fundo do mar e conhecia animais que o ser humano nunca viu ao mesmo tempo que eles conheciam partes dele que ninguém jamais conheceu. O mar toma-lhe a forma, e se inunda de mar ao mesmo tempo que o mar inunda-se dele, até transbordar, salgado, por todos os orifícios do rosto, soluçando e sorrindo como uma criança que vai a praia pela primeira vez.